Morrendo - Oswaldo Martins

MORRENDO

Primeiro de julho de 2015, estou morrendo. Morrendo, mas continuo existindo, uma existência aterradora e sufocante ao ponto de me tirar o fôlego de vida.

Dor, muita dor, como que uma lança transpassada em minhas entranhas. Uma entidade mais forte do que eu me agarra ao pescoço, aperta-me a garganta e sufoca. Já não consigo respirar.

Sinto cem vezes o meu peso, um gigante sobre mim. Pareço estar morto, me encontro em posição horizontal, prostado em uma cama, não consigo me levantar, um braço pesa mais que o corpo, permaneço imóvel.

Estou como se estivesse morto, mas continuo vivo. A dor da vida, da existência, é maior do que a ideia de uma aproximada morte.

Dói-me o corpo, dói-me a alma, o espírito; mas no fundo (a parte racional de mim) sei que toda essa minha subjetividade misteriosa e aterradora, não passa de uma massa cinzenta encefálica consciente, com inúmeros processos neuroquímicos. Em consequência disso, uma desordem química neural me assola. Então, em minha mente surgem pensamentos (do passado e do presente) negativos, fracassos, decepções e frustrações diversas. Por fim, a dor se divide entre dores subjetivas e dores fisiológicas, psicossomática, rodopiando em meu corpo e minha mente, como em um tango infernal.

Por alguns minutos, fico à pensar sobre a morte e a sua aparente personificação. Será que morri e ainda existo? Penso nessa anciã de tempos primórdios, que causa horrores e tremores sobre qualquer alma humana existente. Porque a tememos, quando na verdade deveríamos amá-la? Sim, amá-la! Como uma mãe protetora, ao perceber a dor e o sofrimento de seu filho, lhe acolhe aos braços, lhe acalenta em seu seio, lhe nutri, lhe acaricia e lhe conforta o colocando em calmo sono eterno.

Neste momento, entre devaneios e dores, pesquiso a etimologia da palavra 'morte' (nome nada apropriado ao meu ver) vem do latim mortificar, dando o sentido de, causar sofrimento. Todavia, o que pode nos causar mais sofrimento do que a exitência humana? Na minha concepção, a morte, poderia ter sido uma deusa em tempos passados, quando passou a ser temida, sendo que do contrário, deveria ser desejada e adorada.  Para mim, Ela se assemelha mais a deusa mãe natureza. Do pó veio, ao pó voltarás.¹ Talvez as duas sejam irmãs? Quem sabe sejam a mesma entidade, onde, fruto de um sistema patriarcal, em algum momento no decorrer da história suas personalidades se apagaram (no caso da mãe natureza) e se dividiram, fazendo com que as pessoas temessem (a morte), ao invés de reverenciá-la; trocando a carícia e o afago de uma possível deusa fêmea da não-existência, pela promessa de uma existência de vida pós morte, dada por um deus-sádico-criador, agora feito macho. Talvez seja esse o motivo de uma intriga cósmica entre Deus (o deus judaíco cristão) e sua maior inimiga, a morte.²

É provável que, antes de nossa enfadonha existência, éramos poeira cósmica no universo. “Extraterrestres exploradores”, adotamos este planeta como lar, chegamos por simples causalidade e nos tornamos vida.

Volto meus pensamentos sobre a possibilidade de uma reconciliação maternal, com essa deusa apaziguadora da dor e, me pego imaginando essa cena fantástica, quando a Morte (aqui, sua personificação), tomará de volta em seu colo, seus filhos que lhe foram tirados pelo erro natural da evolução metamórfica da vida.

Imagino a deusa-mãe da não-existência, perdendo seus filhos, que antes eram 'não-vida', agora, pelo processo natural seletivo, evoluídos para organismos complexos e sencientes, passam a replicar vidas, e vida com consciência. Porém, em um futuro próximo a todos, pelo ato do último suspiro e da última carga elétrica cerebral, nos reconciliaremos com Ela.

Tomará para si os seus filhos que lhe foram tirados. Seremos apaziguados e, dos nossos olhos, toda dor se enxugará,³ num sono eterno em um plano de não-existência.

Por fim, estou aqui, morto-vivo-morto, de bruços, com todos esses sentimentos, dores, angústias e pensamentos. Com o mínimo de força e vontade restantes que, ao digitar essas linhas, se fossem escritas a lápis, seriam tremidas e fracas.

Num único e uníssono suspiro de angustia e dor, penso nessa última possibilidade de reconciliação humana, com a Divina Mater*. E uma única certeza me conforta...
- MARTINS, Oswaldo. Cuiabá, 2015.

1 - Eclesiastes 12:7
2 - I Corintíos 15:26
3 - Apocalipse 21:4
* - Sig. Mãe Divina

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